Irmã




Pois é, seu aniversário hoje.
Amanhã você já vai poder falar que está um pouco mais moça, embora seja visível.
Lamento que você tenha crescido tão rápido, mas é normal de irmã mais nova, acompanhar mais ou menos o desenvolvimento da mais velha, e ser, portant0, um pouco precoce.
Lamento por esse lado, o de perder a infância, mas me alegro por outro, por agora, que nos encontramos mais ou menos no mesmo nível de maturidade, podermos compartilhar tantas coisas.
Ter você aqui, é algo além de explicações.
Porque você é linda, você é um amor, você é inteligente, divertida, amiga, companheira.
E todos os nossos momentos são só nossos, porque eu sei que quando eu não tiver mais ninguém, eu vou ter você.
Tantas risadas, tantas bobagens, músicas loucas, toques retardados, conversas de madrugada, que fazem a mamãe e o papai terem que obrigar agente a dormir.
É tão bom saber que nos dias em que eu estiver triste, você vai estar lá para me abraçar, e que naqueles dias em que nós duas estivermos cansadas de tudo, vamos poder ir para aquela praça aqui perto de casa, sentar em um banquinho, e ver o pôr do sol, enquanto falamos mal do mundo inteiro e colocamos nossos assuntos em dia, e voltaremos para casa sorrindo, mesmo que a conclusão maior que tiremos disso tudo seja que o mundo é uma grande porcaria.
E sabe, eu adoro até as coisas que me irritam.
As vezes em que você chega saltitante aqui, enquanto eu estou no computador, me pedindo para baixar tal música, para ouvir aquela outra, e você não para de pedir até eu concordar. Fazer o que? Te ensinei a gostar de músicas boas (hehe), agora tenho que aguentar.
Você, com certeza absoluta, é a pessoa mais insistente que eu já conheci, mas vou te contar uma coisa, apesar disso, que é uma chatice, diga-se de passagem, você é uma pessoa incrivelmente adorável.
Tão lindo esse mundo de sonhos que construímos, desde que éramos crianças, quando nem éramos tão amigas assim, e tão bom que tenhamos nos tornado.
Eu já nem sei o que seria de mim sem você, sem sua companhia, sem sua alegria.
Você é como luz, calor, um raio de sol nessa casa, você é meu porto seguro.
E nós vamos sim continuar brigando, pelo computador, por roupas, e por milhares de coisas pequenas e chatas, mas faz parte.
Isso jamais vai mudar a minha admiração, o meu afeto, a minha lealdade.
Minha irmã, meu amor.



P.S.: Fofos, tive que dar essa pausa pro aniversário da irmã, mas volto em seguida com a parte II do post passado, um beeijo!

Little Girl Blue - parte 1

Com 23 anos era uma menina.
Tinha todas as bonecas em cima da cama, não tivera coragem se desfazer delas. Usava meias coloridas por debaixo da calça e adorava o pijama todo estampado de coraçõezinhos. E quando chorava, abraçava o Fofuxo, companheiro fiel das tristezas, tão de carne e osso quanto de pelúcia.
Se você a visse na rua, não diria. Com o cabelo solto e jogado, de óculos escuros, uma felicidade estampada, que pareceria segurança, embora não fosse. Pareceria para você uma mulher, mas não era.
Morava sozinha em seu apartamento, que ela decorara como quisera, cheio de cores e coisas desconexas.
Ela era desconexa, você não veria nada de homogêneo ou constante, pois não havia. Ela era liberdade colorida esvaindo por todos os poros.
Tivera umas paixõezinhas, mas não acreditava que já havia amado. A não ser que amar o Rudy ou o Mr. Darcy valesse. Não, não valia.
Queria tanto experimentar o amor, que ás vezes ficava na sacada para ver se algum Romeu passava para lhe recitar toda a cena do balcão.
Era fascinada por Romeu e Julieta. Já tinha até decorado aquela parte: "Mas silêncio. Que luz escoa agora daquela janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso Sol, e mata a Lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente, por ter visto que, como serva, és mais formosa que ela."
Ás vezes se deitava no tapete e ficava imaginando histórias, colocava um jazz, dançava, fazia um café e ia para praça ver o pôr do sol.
Mas lhe faltava algo, algo para tirar-lhe a paz infinita.

"E tenham todos um ótimo espetáculo!"


Respeitável Público, o show já começou, já está no meio, um piscar de olhos e as luzes já estão no centro do palco. Os artistas estão entrando, a música toca. Que música é essa?
Respeitável Público, comunico aos senhores que, neste show, vocês são a platéia e os artistas, pois subam ao palco, tomem os seus lugares, e um, dois, três: agora!
Tudo está na iminência de acabar, é tudo uma vez só, arrisquem-se, pois não há ensaio prévio, a vida é o ensaio da vida, e tudo é um esboço do que deveria ser.
Adentrem o palco, com máscara ou a cara limpa, saibam que estarão suscetíveis a todo tipo de emoção e julgamento que possa provir do respeitável público. Mas não pensem que podem se proteger, uma máscara não deixa de ser parte do artista.
E girem, um, dois, três. E plié, mais uma acrobacia, cinco, seis, sete, oito. E não errem, e de novo, e de novo, só há essa chance, e um, dois, três.
Que expressões são essas?
Sejam expressivos, ou não sejam , chorem se quiserem e sorriam, o máximo que puderem.
Mas não pensem que podem sorrir o tempo todo, é tudo um fugaz e eterno momento, tudo pode caber nesse instante, está tudo no agora.
Se há algum roteiro?
Pois respeitável público, eu sou público e artista como vós. Sigam o compasso, e mais um passo, e um, dois, três.
A respiração ofegante, o cansaço de quem dança na contagem daquela música que não parece fazer sentido algum, e é quase como se desejássemos o silêncio. Olhos que se encontram, personagens que cruzam o palco.
E cinco, seis, sete, oito, mais uma vez agora.
Mas não queremos ir, respeitável público, e abandonar-vos. Um salto, dois passos, uma lágrima logo se apaga no chão de madeira, levantem a mão e: ooooh! o que é isso?
O nome disso é poesia.
Mas logo vêm as palmas, as cortinas estão fechando, faz parte do show, abaixem a cabeça, abram seus braços, aceitem, compartilhem, agradeçam, e é hora de ir.

Reflexo de estrela

Muitos carros passavam, inacreditavelmente rápidos para minha mente que agora funcionava no seu próprio ritmo, como que sorvendo os poucos segundos que lhe restavam, como que sabendo que logo aquele peso não seria de tal forma opressor, e se havia outra existência depois, quem sabe... Contudo, era difícil não acreditar que aquilo não passava de matéria orgânica, que por alguma mágica tornara-se vida, vida que agora tinha consciência de si mesma, e não queria mais viver.
As cores dos veículos iam se confundindo, mesclando-se. Era hora do “rush” ,como se diz, e não era esse o momento. Mas logo seria, logo eu teria calma, logo ia passar. Ia passar... Tudo ia passar.
Olhei para o rio, distante, lá embaixo. E quase senti tranqüilidade.
Eu havia decidido, era certo, mas será? Lembrei-me de meus momentos de infância, na rua de terra, tudo voltava agora.
O primeiro beijo, o primeiro namorado, o primeiro vermelho no boletim, e você, tão de repente você, um pulsar inevitável de vida, um coração sempre latente, sangue a bombear-me nas veias, um perfume que deveria ser de alguma flor, algum amor, pedacinho de nuvem. Água que despenca, na chuva fresca de verão, uns olhos cor de mar, sempre a encher os meus.
Por que hesitar se há muito vivo morta?
Olho para o rio. “Irás me receber você, assim como uns braços que já me arrastaram para a fatalidade de tudo?”. Pois então eu tinha aprendido a ser patética. Uma gargalhada solta, estridente, gargalhada de dor.
Me fez lembrar uns velhos amigos, uns sorrisos, umas alegrias, uns poemas, uns desenhos, umas promessas.
Promessas... Sempre elas. E que tolos somos nós por fazermos promessas, como se tivéssemos qualquer controle sobre a vida, como se pudéssemos garantir á alguém o que será o dia de amanhã.
Pois agora eu teria controle sobre meu destino, eu tinha escolhido, e se tanto ele havia me tomado, agora pago pra ver a força deste tal Destino, “te desafio a me fazer mudar de idéia!”, gritei.
Ele não respondeu. Silêncio. Vazio. Reflexo do que me habitava.
Os carros já não passavam, olhei para os dois lados e não vi ninguém. Não creio no que vejo aqui no fundo, aqui bem dentro de mim. Por que torço pra que alguém apareça? Que me abrace, me diga que tudo vai ficar bem e me traga um café?
Não. Afasto esse pensamento. Todos os braços que me abraçaram me deixaram ir. Todos os sorrisos foram punhais, cravados mais fundo, em um coração momentaneamente anestesiado.
Pois a anestesia tinha acabado, e esse estado adormecido chegara ao seu fim. Pontadas de dor, nós na alma, tantos, e um vazio, maior que as estrelas que um dia tanto admirei.
Olho para o rio. “Você reflete as estrelas quando chega a noite? Talvez eu espere pra ver”. Não. Tinha que ser agora.
Aquelas estrelas, ali, refletidas na água, tinham uma pseudo-vida, assim como eu. Digo, ser reflexo de estrela. Pois assim havia sido minha vida, um reflexo, uma inexistência constante em existir, e só assim encontrei meu padrão. Mas seria finito, logo.
Sentei-me no parapeito da ponte.
“E você? Me quer, rio?”
Ele sussurrava: “sim.”
Uma lágrima rolou pela minha bochecha, e não pude deixar de lembrar das suas mãos no meus rosto. Ela balançou no queixo e caiu nas águas agitadas, um pedaço meu. Não bastava.
Fiquei de pé.
Me virei de costas.
Senti o vento balançar o meu cabelo. Me lembrei dos seus dedos enlaçando cada fio dele, me lembrei dos meus dedos, perpassando sua barba mal feita. Seu cheiro, engraçado que, de tudo que perdi na vida, e tanto já vivi depois de te perder, tenha me restado você, sua lembrança.
Engraçado que agora no fim só me venha você.
Nem sei se fui feliz ao seu lado, acho que não. Quantas vezes disse aos quatro ventos que não te amava? Perdão.
Eu nunca soube de nada. “E você, rio? O que você sabe?”
Senti o vento mais uma vez, e me cansei de sustentar o peso da vida. Simplesmente isso. Me deixei cair.
Agora eu sou do rio. Agora eu sou o rio.

P.S.: perdão pela melancolia e morbidez, é que me veio esse personagem, esse momento, exatamente assim, e eu tive que escrever.

Era Domingo

Imagine o sol entrando pela janela empoeirada, de uma casa cheia de escadas empoeiradas, em um dia com cheiro de mofo.
Um velho repousa em sua cadeira de balanço, usando sua melhor roupa velha, olha para a vitrola e aguarda com flores nos braços.
Fecha os olhos e volta àquele momento, há tempos, quando dançaram juntos. Ela tão bonita para ele, flutuando em seus braços.
Mas a vida insistia em lhe tirar o que era bom.
Depois que ela se fora, nada mais tivera graça e a morte era uma velha amiga que insistia em se atrasar.
De repente o perfume dela invade a casa e ele a vê entrar, por trás de um raio de sol.
"É hora de ir".
Sorri apenas.
Dão-se os braços e saem caminhando em direção á igreja branca, e mais á frente, ao sol que se põe.
Era Domingo.
O sol voltaria a se pôr no dia seguinte, e no seguinte, e no seguinte...

* este continho foi inspirado na música "A Sunday Smile", do Beirut.

Eu tenho a força

Acredito eu que meu momento depressivo se encerrou, tão de repente quanto começou.
Relendo o post passado, tive vontade de apagar, mas não costumo jogar fora as coisas que escrevo, por piores que sejam, porque sempre trazem alguma coisa, que seja a lembrança de alguns sentimentos que já foram, há muito, superados.
Esses não foram totalmente, é verdade, só se tornaram um pouco mais digeríveis.
Agora, volta para mim o sentimento de posse da minha vida e das minhas escolhas, e talvez, onde eu pensei que tinha metido os pés pelas mãos, tenham sido minhas decisões mais acertadas, num momento de lucidez que sei lá de onde veio.
Se eu vou perder essa paz na próxima esquina? Sinceramente, só Deus sabe, e eu, relis mortal que sou, não ousarei tentar adivinhar o futuro,porque provavelmente não vai adiantar porcaria nenhuma.
Sei que hoje, e sobre amanhã não posso dizer, sinto que talvez eu possa ser quem eu quiser, que talvez eu possa cortar meu cabelo como quiser só porque me deu na cabeça, que talvez eu possa escrever o que eu quiser, onde eu quiser, na hora que bem entender, não ir bem no vestibular ou não ser o que querem que eu seja, e principalmente, posso ser livre, ainda que olhando para minha cara não se veja liberdade em lugar algum.
Se eu sou profunda demais?
Sei que sou, e isso não vai mudar. E ainda que eu venha falar de coisas banais, é provável que em algum ponto se iniciem minhas filosofias, mas é assim que eu sou.
No mínimo, me deixa feliz minha capacidade de poder me emocionar diante de uma flor ou um pôr-do-sol, que passam despercebidos pra tanta gente.
E este amor profundo que sinto pelas pessoas que estão do meu lado, meus pais, minha irmã, meus amigos, talvez seja um presente, ainda que algumas vezes me faça sofrer.
E talvez eu seja mesmo piegas, falando de amor e de flores, assistindo "Diário de um paixão" trinta milhões de vezes, enchendo meu ser de esperanças sobre o futuro e sobre a minha felicidade, e por que não? Sobre o amor.
Talvez eu seja ingênua, com as minhas idéias de igualdade.
Talvez eu seja uma escritora de quinta, que só escreve umas frases feitas, que só fala de coisas que parecem clichê, e que parece escrever um livro de auto-ajuda para si mesma.
Mas sabe de um coisa?
Eu posso ser.
P.S.: Fofos, consegui enfim criar um feed, ainda não sei se deu muito certo, porque, sinceramente, não entendo nadinha de computador.

O que não deveria ser dito

Ás vezes a vontade maior é fugir, é poder manter distância para tentar esquecer, é não ouvir músicas que façam lembrar ou fugir dos meios de comunicação que trazem a notícia de quem não se quer saber.
E na verdade, ao mesmo tempo, o coração remendado agradece por ter o mesmo rosto, ainda que distante, perpetuando-se e tatuando-se sempre mais fundo no peito, diariamente.
É o martírio cotidiano, alimento do eterno prazer de torturar-se, parte das nuances de amar.
Hoje, sua simples aparição faz o coração bater descompassado e a alma dá um nó de tanta dor.
Ainda que a vontade seja fugir, algo como um senso mórbido de dever, insiste em fazer sentir a dor no talo.
Se é assim que tem que ser, que seja.
Minha verdadeira opinião é que é mais que merecido para mim, que não sei amar direito.
E o coração cansado, parte-se mais uma vez, espera agora que os remendos possam ser feitos pelo senhor das desilusões, o tempo. E logo, será cicatriz visível, mas já indolor, uma entre tantas, lembrança de um tempo passado, de lágrimas perdidas, de felicidade que escoa pelos dedos e que irá encontrar-me mais á frente, no meu caminho, com certeza.